terça-feira, 8 de novembro de 2011

Biblioteconomia potiguar: cenário e perspectivas (?)


Cursar a Graduação em Biblioteconomia no Rio Grande do Norte é um privilégio. Privilégio de exatos 148 estudantes que estão matriculados no atual período [2011.2] – apesar de nem todos estarem ‘ativos’. A Universidade Federal do Rio Grande do Norte [UFRN] é a única instituição no estado a oferecer o curso presencial, e recebeu o reconhecimento do MEC no ano de 2001.

O que se pode observar no cenário bibliotecário no RN passados dez anos de atuação do ensino de biblioteconomia? Qual a situação dos profissionais formados? Como é o seu mercado de trabalho? Quais instituições contratam mais? Quais as condições de trabalho nas bibliotecas? Qual o reconhecimento social do profissional? Qual a capacidade empreendedora desses profissionais?

Não sei ao certo.

Alguém saberia responder satisfatoriamente a todas estas questões? O Conselho Regional de Biblioteconomia [CRB]?

Temos sempre oportunidades de estágios durante todo o período de curso. Empresas públicas e privadas estão sempre abrindo e divulgando vagas para os estagiários. As horas de atividades e valores de remuneração podem variar. E o rodízio de estagiários pelas instituições é corrente, o fluxo sempre constante. Ao máximo de dois anos os estagiários são renovados. Isso dá a oportunidade dos estudantes experimentar competências diferentes em instituições diferentes.

Mas, e quanto aos profissionais, quais são as oportunidades após a conclusão do curso?

As empresas privadas geralmente oferecem os melhores salários e melhores condições de trabalho. Mas como chegar até elas? O estágio é uma forma. Aquele estudante que fez um bom trabalho, destacou-se na empresa enquanto estagiário e quando na oportunidade de sua formatura, abre-se também, oportunamente, vaga para bibliotecário e então este ocupa a vaga ofertada. Mas não é sempre assim. Muitas contratações, sabe-se, são por indicações.

As instituições públicas federais, estaduais e municipais ofertam vagas com salários e condições de trabalho diferentes umas das outras (diferenças que chegam a ser gritantes entre as instituições).

Seguir carreira acadêmica também é uma opção para o estudante de biblioteconomia. Porém não é o perfil de todos. Na verdade é perfil da minoria (vamos ‘chutar’ que 90% daqueles que ingressam na graduação tem interesse em cursar apenas a graduação).

Enquanto ao empreendedorismo, poucos ou raríssimos são os casos de destaque.

Então, depois de formado o bibliotecário pode distribuir seu currículo, ‘correr atrás’ de trabalho em empresas ou de pessoas influentes no mercado que possam fazer indicações. Podem continuar estudando para manter-se atualizado e encarar os concursos que forem aparecendo. Ou pode trabalhar na elaboração de um projeto de pós-graduação ou de empreendedorismo próprio (para isto precisará, muito provavelmente, de uma graninha para começar). Ou ainda, esquecer a área, lembrar apenas que tem um diploma de nível superior e encarar todo e qualquer concurso, seja para biblioteconomia, polícia, bombeiro, ASG, bancário, técnico administrativo ... o que também é muito comum!

O bibliotecário recém-formado apenas não quer assumir o cargo de ‘estatística’, ‘estatística de desemprego’!

Preocupado com o futuro iminente, me pergunto quão interessante seria (para a Academia, para o estudante, e para os profissionais que chegam ao mercado todos os anos) o mapeamento e acompanhamento do cenário bibliotecário potiguar?

[Uma base de pesquisa que identificasse as unidades públicas de informação em cada região do estado, pudesse descrever suas condições estruturais, seus serviços, equipamentos, a postura profissional dos responsáveis (quando não for o caso de se ter a frente um bibliotecário: quais as consequências para a instituição, para os usuários e para a imagem do bibliotecário que é confundido com aquele outro), estatísticas de atendimento, características do público usuário, políticas públicas voltadas para área (seja no âmbito federal, estadual ou municipal), salários, meios de atualização profissional, qual a visão da comunidade atendida, etc... Estudos que englobassem aspectos políticos, econômicos e sociais do campo público de atuação bibliotecária no RN]

Talvez pesquisas assim pudessem contribuir para maior e melhor percepção da realidade de mercado, para atividades de fiscalização junto aos Conselhos de Biblioteconomia, para justificar as exigências de melhorias à classe frente os poderes públicos, para difundir e promover a imagem do profissional... Enfim, para fazer da biblioteconomia potiguar uma biblioteconomia pioneira, 1º lugar não somente em avaliações burocráticas, mas EFETIVAMENTE!

sábado, 5 de novembro de 2011

O Papel da Universidade na América Latina Contemporânea*


O “II Encontro Internacional de Estudos Sobre A América Latina – 20 Anos de MERCOSUL: balanços e perspectivas” teve seu encerramento nesta manhã de sábado, 05 de novembro, com palestra e lançamento do livro “Crítica à Razão Acadêmica”, organizado pelo professor Nildo Ouriques e Waldir Rampinelli. O encontro ocorreu no Auditório da Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM/UFRN). O professor Ouriques falou por cerca de três horas entre palestra e dois blocos de debates (coordenados pelo professor Gabriel Vitullo, do Departamento de Ciências Sociais, UFRN) ao auditório lotado (alguns ouvintes tiveram de assistir toda a palestra em pé e outros sentados ao chão), para um público formado majoritariamente de estudantes de diversos cursos e diferentes instituições, alguns professores da UFRN e também representações de partidos e outras organizações.

O livro surge na oportunidade do 50º aniversário da Universidade Federal de Santa Catarina. Ouriques e Rampinelli, organizadores da obra, vêem então a necessidade de se pensar criticamente a universidade brasileira: o que é a universidade? A universidade é a casa do saber? Existe crítica (além da marginalidade) na universidade?

Ouriques fala que as primeiras características comuns diagnosticadas foram a ‘nobreza’ e a ‘imitação da prática estrangeira’.

Por imitar os modelos da prática norte-america e européias, as universidades brasileiras acabam por criar uma divisão burguesa do conhecimento, consequência da divisão social do trabalho, provocando uma excessiva especialização do conhecimento e conferindo aos docentes universitários um gangsterismo travestido de respeitabilidade, seguidores de modismos intelectuais nas linhas de pesquisas em pós-graduações, que por sua vez  provocam o desprestígio do ensino de graduação. Cultura repassada de professor a alunos, que criam mesmo uma relação de “Clientela – Vassalagem”, produzindo conhecimentos voltados para si mesma e de pouca (até mesmo nenhuma) utilidade ou contribuição para a sociedade. Aqui, provoca: poderia a universidade dar mais retornos à sociedade?

A crítica seguinte cai sobre os métodos avaliativos que rompem os nexos com o social, criando uma burocracia especialista em controle e disciplina, e produção científica desvalorizada (uma riquíssima produção em “não há nada novo a dizer”, mas é preciso publicar). Seguindo à risca ‘o sistema de produção mundial do conhecimento’, fortemente representado pela CAPES, no Brasil, que na prática de seu big business desqualifica a revista científica nacional ao prestígio das publicações estrangeiras daquela mesma pós-graduação modista, colonizada. A ciência brasileira se torna prestação de serviço às grandes empresas.

Para que serve então a universidade brasileira?

O ensino não está em contato com a realidade. O pensamento crítico não está disponível à universidade brasileira, que vive submissa ao império da mediocridade, que não exerce a liberdade cátedra, tampouco sua autonomia, e não transformará a sociedade enquanto não tiver como ambição intelectual “vencer o conformismo”.

(*Palestra concedida por Nildo Ouriques, professor da UFSC)